terça-feira, 7 de agosto de 2018

ARANDU ARAKUAA - Mrã Waze


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1. Sy-gûasu
2. Gûaîupîá
3. Îasy
4. Danhõ’re
5. Huku Hêmba
6. Ko Kri (instrumental)

7. Jurupari

8. Gûaînumby
9. Îagûara Kûara
10. Abaré Angaíba
11. Rowahtu-ze  


Banda:


Zândhio Huku - Vocais, guitarras, viola caipira, instrumentos indígenas
Lís Carvalho - Vocais, pífano
Guilherme Cezario - Guitarras
Saulo Lucena - Baixo, vocais
João Mancha - Bateria, percussão


Ficha Técnica:

Caio Duarte - Produção, mixagem e masterização


Contatos:

Site Oficial:
Assessoria:  

Texto: M. Garcia


Em termos de Alma Mater, o povo brasileiro ainda carece de maior aprofundamento e compreensão do que vem a ser seu conjunto de características nativas. Óbvio que não se podem negar as contribuições culturais dos povos europeus e africanos para moldar a identidade cultural do nosso povo. Mas muitas vezes, deixamos de lado o aprofundamento intelectual necessário para compreender e assimilar a cultura do índio, talvez o grupo étnico mais maltratado e desdenhado de todos. Nisso, já existem bandas de Metal por aqui que rebuscam a essência dos povos indígenas, e sem sombra de dúvidas, o ARANDU ARAKUAA continua sendo um dos nomes mais fortes dentro do que podemos chamar de Folk Metal brasileiro. E é uma honra poder não só ouvir (o que por si só já é algo prazeroso), mas resenhar “Mrã Waze”, seu terceiro e mais recente álbum.

A banda mais uma vez lança de elementos indígenas associados ao Metal em suas vertentes mais variadas (inclusive com partes extremas) para criar algo único, algo original e diferente, que tem momentos em que impera a agressividade, e outros onde as melodias se tornam mais interiorizadas mais introspectivas e melancólicas. A maior das diferenças de “Mrã Waze” e seus antecessores é a coesão, pois a cada disco lançado, a banda vai ganhando riqueza musical e o seu estilo vai ficando mais e mais sólido, com ótimas partes instrumentais, vocais diversificados (urros extremos se entremeiam com doces vozes femininas e timbres masculinos normais quase xamânicos), além da maior exposição do lado indígena de sua música.

Outra característica única da banda, como já é de conhecimento de todos, é o uso de linguagens indígenas. Tupi, Xavante, e Akwẽ Xerente são os idiomas usados (exceto em “KoKri”, uma faixa instrumental onde o título vem do Krahô), o que torna tudo ainda mais único.

Sim, “Mrã Waze” é outra obra prima do grupo. E para os que tanto reclamam de originalidade, eu os desafio a verem algo similar ao grupo lá fora.

A produção do disco ficou muito boa, tentando ser translúcida nos momentos mais melodiosos, mas com peso e agressividade quando eles pegam mais pesado. E digamos de passagem: construir uma sonoridade para “Mrã Waze” não deve ter sido muito simples, pois conseguir associar tantos elementos diferentes juntos é bem difícil, mas ficou de alto nível. Até a arte gráfica esboça a dualidade harmônica do indígena com a natureza que o cerca.

“Mrã Waze” significa “Respeito à Natureza” no idioma Akwẽ Xerente, e por isso, tem em si um conceito bem complexo, mas que pode ser resumido a “todos unidos em matéria e espírito”, algo harmônico para todos. E é a harmonia que surge em seus arranjos musicais, na dinâmica entre cada uma das canções do disco. É impossível não se sentir atraído por tamanha diversidade e beleza em termos musicais.

Sy-gûasu” é uma faixa totalmente focada nos elementos indígenas, quase como um ritual de purificação/pacificação de todos, seguida dos contrastes entre o suave e o agressivo que formam “Gûaîupîá” (que lindas passagens de vocais femininos e viola caipira, mas as partes agressivas são excelentes), assim como a tribal “Îasy” (onde as guitarras mostram riffs muito bons, além de muita criatividade). Em “Danhõ’re”, muitos elementos do Sertanejo dão as caras (nada a ver com o estilo em voga e que tantos amam), e mostrando belas cordas e percussões. Com uma vibração positiva e sedutora, temos a complexidade dual (em termos de melodias e agressividade) de Huku Hêmba”. Na instrumental “Ko Kri”, novamente temos mais abrangência dos temas regionais guiados pela viola caipira. Em Jurupari”, por sua vez, o grupo tem uma pegada mais direta, seca e agressiva guiada pelas guitarras, mas o trabalho nos ritmos ditados por baixo e bateria está ótimo. Já em Gûaînumbyeles voltam a ter mais enfoque na introspecção, focando mais nas melodias bem feitas e executadas com cordas limpas, percussões e chocalhos que seguem belas linhas vocais limpas. Novamente carregando no peso e técnica, “Îagûara Kûara” mostra bem todos os lados do diamante que é a música do grupo (novamente corais muito bons). Em outra mistura de partes agressivas com toda uma ambientação indígena e outros momentos mais introspectivos, temos Abaré Angaíba”, onde percussões e vocais masculinos dão um tom bem melancólico e denso ao final da canção (embora encerre com partes mais duras e brutas). E Rowahtu-ze” vem com um jeito que mixa o azedume extremo com técnicas não convencionais ao Metal e muitos vocais que lembram um pajé recitando suas orações.

No fundo, o ARANDU ARAKUAA é uma das bandas mais criativas do país, e merece respeito por isso. Mas digamos que além de excelente, “Mrã Waze” vem forte para ser um dos grandes discos de 2018!

Ele já pode ser ouvido nas plataformas digitais, mas a versão física de “Mrã Waze” está quase saindo do forno.

Para melhor informar o caro leitor, abaixo estão os nomes das canções com suas traduções, e informação de qual idioma usado.

Sy-gûasu - Grande Mãe, no idioma Tupi
Gûaîupîá - Espírito dos Pajés Bons, no idioma Tupi
Îasy - Lua, no idioma Tupi
Danhõ’re - Cantar, no idioma Xavante
Huku Hêmba - Espirito da Onça, no idioma Akwẽ Xerente
Ko Kri - Água Fria, no idioma Krahô
Jurupari - Deus dos Sonhos, no idioma Tupi
Gûaînumby - Beijar-Flor, no idioma Tupi
Îagûara Kûara - Toca da Onça, no idioma Tupi
Abaré Angaíba - Padre Mau, no idioma Tupi
Rowahtu-ze - Ensinamento, no idioma Akwẽ Xerente

Nota: 100%